Jan 23 2007
“É mais difícil representar na rua do que em palco.”
O TEL, Teatro Experimental de Lagos, começou-se a impor, a alargar e a conquistar o seu próprio público na comunidade lacobrigense. Nascido do entusiasmo e dedicação de Conceição e Silva, teve continuação graças ao entusiasmo de alguns que consigo contracenaram e que se deixaram seduzir pela arte de representar. E desses nomes que vêm do grupo original, pode-se contar com Silménia Magalhães que tem sido o rosto mais visível a dar continuidade a esse projecto inicial.
Para se conhecer melhor esta personalidade, se compreender a sua dedicação e todo o percurso que o TEL vem fazendo no campo da representação com iniciativas inovadoras, fomos falar com Silménia Magalhães que começou por revelar a forma como se deixou apanhar pelas malhas do TEL de então. Nesta sua revelação, dir-nos-ia que, logo aos 18 anos, começou a pisar os palcos pela mão de Conceição e Silva. Daí em diante, não mais parou e, para dar continuidade ao trabalho do mestre, acabou por se tornar a presidente do grupo, após a retirada de Conceição e Silva por motivos de doença. Poder-se-ia pensar que o TEL, após a retirada do seu fundador, se iria eclipsar.
Mas Silménia, com entusiasmo e poder de persuasão, deu-lhe força e ousou até abrir-lhe as portas ao exterior. Com efeito, para além dos palcos de Lagos, o TEL já começa a percorrer os palcos de outras localidades pelo Algarve adiante. Mas para além desta sua expansão, procurou adaptar-se aos tempos e trilhar os caminhos da inovação. Foi neste sentido que, em 2002, se transformou em associação juvenil para concorrer ao PAAJ e continuar a garantir os apoios do Instituto Português da Juventude. Ao direccionar o seu trabalho especialmente para os jovens, inaugura o chamado teatro de rua que, além de ser uma vertente nova da sua arte de representar, dá-lhe mais visibilidade e uma aproximação maior de determinados públicos da cidade.
Para nos falar deste percurso, das suas expectativas, das suas dificuldades e da sua vontade em as vencer, Silménia Magalhães, no seu estilo simples e despretensioso, faz-nos percorrer os caminhos do TEL. E se quisermos penetrar no mundo do Teatro Experimental de Lagos e conhecermos o seu passado, o seu presente e as suas perspectivas de futuro, o melhor é percorrer as páginas desta entrevista.
Correio de Lagos – O TEL é o grupo de teatro mais antigo de Lagos. Considera que, passados tantos anos, já têm uma posição segura na sociedade lacobrigense?
Silménia Magalhães – Penso que sim. Temos trabalhado para isso. Mas, no contexto da sociedade em que vivemos, é difícil afirmá-lo.
C. de L. – Poder-se-á dizer que, agora, o Teatro Experimental de Lagos já está bem alicerçado ou as suas estruturas ainda não são suficientes para continuar, independentemente da actual equipa dirigente?
S. M. – Ainda nos falta muita coisa. Mas, se durante todos estes anos sempre fizemos teatro com poucos alicerces, claro que vamos continuar a trabalhar e a lutar para, aos poucos, irmos construindo os alicerces que nos faltam.
C. de L. – Sente que já têm um público fiel aos espectáculos do TEL?
S.M. – Sim, penso que já temos o nosso público, há determinadas pessoas que vão sempre ver os nossos espectáculos.
C. de L. – Poder-se-á dizer que o TEL nasceu a partir de uma espécie de teimosia de querer representar a “Ceia dos Cardeais” de Júlio Dantas?
S. M. – Não. O TEL nasceu do sonho e da vontade de um grande homem, Conceição e Silva, que foi um pai para nós e com quem aprendi muito. O nosso primeiro trabalho foi a peça “O Urso”, de Tchekhov. Só mais tarde fizemos a “Ceia dos Cardeais” de Júlio Dantas. Mas, sim, essa peça teve um grande impacto, daí, ainda hoje, estar na memória das pessoas.
C. de L. – Este renascer do teatro em Lagos fica ou não a dever-se muito a Conceição e Silva?
S. M. – Sim, claro. Quando formou este grupo não havia teatro na cidade e ele já tinha estudado teatro em Lisboa. Foi, de facto, o grande impulsionador do TEL.
C. de L. – Depois desta primeira etapa que foi muito marcada pela insistência e persistência de Conceição e Silva, este vosso fôlego tem muito a ver com o dinamismo e o entusiasmo da Silménia. Já tinha, anteriormente, outros contactos com o teatro ou apenas começou com o TEL?
S. M. – A continuação do Grupo partiu da vontade de um conjunto de pessoas que na altura faziam parte do TEL. Eu tomei conhecimento desta arte através do Conceição e Silva. Tinha, na altura, 18 anos e nunca tinha feito parte de nenhum outro grupo de teatro.
C. de L. – Quem são os membros do TEL?
S. M. – Os membros do TEL são um conjunto de pessoas teimosas que lutam todos os dias pelos seus sonhos e valores.
C. de L. – Existe alguma característica que os distinga?
S.M. – Nada mais nos distingue. Somos todos loucos!
C. de L. – Há algum membro que esteja desde o começo do grupo?
S. M. – Que me lembre, desde o 1º dia, só eu, o José Bandarra e o Júlio Barroso. Pouco tempo depois, entraram o José Torres, a Célia Catela, a Maria João Montes e a Madalena Luz. São pessoas que deram muito ao teatro e continuam a dar.
C. de L. – Quais são os géneros teatrais das peças do TEL?
S. M. – Não temos géneros específicos. Às vezes, são os géneros que os encenadores sugerem.
C. de L. – Além das peças teatrais, também fazem outros tipos de animação cultural, como a animação de rua. Quais são as que têm tido mais adesão do público?
S. M. – A partir de 2002, quando formámos uma Associação Juvenil, e com a colaboração da Nelda Magalhães que tem desenvolvido um trabalho extraordinário com os jovens, aventurámo-nos por esta área, indo também ao encontro do gosto deles. Sem dúvida que um dos trabalhos que impulsionou o grupo a continuar foi a peça de rua “Fel”. É difícil dizer quais as que têm tido maior adesão. Na rua há sempre público e uns trabalhos agradam a uns e a outros não.
C. de L. – Como é que as vossas peças têm sido recebidas, por exemplo, pelo público mais jovem?
S. M. – Nos trabalhos de rua, os jovens costumam ser o nosso público-alvo e também nos trabalhos de palco, cada vez mais se vê jovens a assistir. Nos últimos anos, quer da parte das Câmaras, quer da parte das associações, todos temos trabalhado para essa meta – ir ao encontro dos jovens e tentar inseri-los em actividades culturais e desportivas – que era uma das grandes lacunas desta cidade.
C. de L. – Quando escolhem uma nova peça para representar têm em atenção as preferências do público ou os critérios são outros?
S. M. – Quando escolhemos uma nova peça, costumamos dar maior atenção àquelas que tenham, sobretudo, uma mensagem. Depende, depois, do trabalho dos actores conseguir passá-la ao público.
C. de L. – O TEL também costuma participar nas festas de Lagos, como a Arte Doce e o Festival dos Descobrimentos. É difícil surpreender o público que, normalmente, é o mesmo, ano após ano?
S. M. – O público de rua nunca é o mesmo, exceptuando os familiares e amigos dos actores. Por isso, não é por aí que o podemos surpreender. Mas, sim, pela qualidade e rigor do trabalho. Embora a maioria das pessoas pensem o contrário, é mais difícil representar na rua do que no palco. Só para dar um exemplo, enquanto num palco se está uma hora em cena, na rua desde que se transpõe a porta está-se em personagem e, até que regressemos, podem passar duas ou três horas ou às vezes mais.
C. de L. – O TEL aposta na formação dos seus elementos com a promoção e organização de workshops. Com que regularidade fazem estas formações e quais as áreas que abordam?
S. M. – Todos os anos fazemos formações ou workshops, uma ou duas vezes. Este ano decorreu uma formação de Março a Junho e, em Dezembro, fizemos um Workshop de dança criativa direccionada a actores. As formações abordam várias áreas, desde o movimento e construção da personagem até ao auto-conhecimento físico e psíquico. Há sempre muita gente inscrita.
C. de L. – De que formas atraem elementos novos para o grupo?
S. M. – Através das formações e, também, há pessoas que sabem que o grupo existe e inscrevem-se.
C. de L. – Além da vertente cultural, qual é a mensagem ou a função que o TEL procura mostrar às pessoas?
S. M. – Com os mais jovens, é ensiná-los a trabalhar em grupo e a partilhar. Depois, a conhecerem-se a si próprios e aumentar-lhes a auto-estima e, sobretudo, ensinar-lhes o que é o associativismo. Muitas vezes, as pessoas vêm para o grupo só com intuito de fazer teatro. Mas, para além do teatro, somos uma associação e isso significa trabalhar em equipa, integrarmo-nos nela e dar de nós aos outros.
O TEL e os outros grupos de teatro de Lagos
C. de L. – O TeatrOficina de Duval Pestana dedica-se a um género mais formal e com um grau de abstracção bastante acentuado. Há algum diálogo entre o TEL e o TeatrOficina ou cada um segue o seu caminho de costas voltadas uns para os outros?
S. M. – O Duval Pestana tem feito um excelente trabalho com os jovens. O TEL não está de costas voltadas para ninguém. Já fizemos um trabalho com o TeatrOficina e o Teatro da Câmara, que o Duval encenou. Fizemos ainda um trabalho com a Filarmónica. E continuamos abertos a parcerias.
C. de L. – Qual a principal diferença entre o trabalho feito pelo TEL e por outros grupos de teatro de Lagos?
S. M. – Não vejo diferença alguma. Todos trabalhamos em prol da cultura e da arte. Isso é o importante.
C. de L. – Actualmente, vê-se o teatro como uma ocupação importante para todas as faixas etárias. Nesse sentido, em Lagos, também já existe, há alguns anos, um grupo de teatro sénior. No entanto, em relação aos mais novos, esta súbita atracção pelo teatro não terá a ver com o surgimento de novelas juvenis e com o facto de quererem ser como as personagens que vêem na TV?
S. M. – É natural que alguns jovens se sintam atraídos pelas novelas. Mas, compete-nos a nós mostrar-lhes outros tipos de atracção. Muitas vezes, eles acabam por descobrir que, afinal, gostam mais de mexer no som, pintar ou desenhar.
C. de L. – Alguma vez se deparou com a situação de alguém querer entrar para o TEL devido ao poder de atracção deste ou daquele personagem, como por exemplo, as dos Morangos ou da Floribela?
S. M. – Não. É possível que esse tenha sido o intuito, mas depressa se interessam por outro tipo de interesses e actividades.
C. de L. – Há pouco tempo a Câmara aceitou um protocolo com a ACTA. O que falta, ainda, fazer em Lagos para levar as pessoas a assistir ao teatro?
S. M. – O que falta fazer em Lagos é o que falta fazer em todo o país. Faltam-nos as bases. Não se pode construir uma casa sem alicerces. Precisamos de construir os públicos e apostar numa boa dinamização e publicidade.
C. de L. – Considera Lagos como uma cidade com tradição teatral?
S. M. – Penso que sim. Embora com alguns interregnos, Lagos sempre foi uma cidade onde o teatro foi um marco cultural.
C. de L. – O dinamismo que o Teatro Experimental de Lagos tem evidenciado é para dar continuidade a essa tradição ou é para inaugurar uma nova forma de representar?
S. M. – Como diz o poeta: sempre que um homem sonha, o mundo pula e avança. Enquanto o sonho é possível, vamos tentando ser dinâmicos. Quanto a novas formas de representar, cada dia é um novo dia e há muito a fazer e a aprender. Muitas vezes, essas formas estão dentro de nós sem sabermos que elas existem.
C. de L. – Quais são as entidades que apoiam o TEL em termos financeiros?
S. M. – A Câmara Municipal de Lagos, o Instituto Português da Juventude e a Direcção Regional do Ministério da Cultura.
C. de L. – É suficiente para todo o trabalho que fazem ao longo do ano?
S.M. – Claro que nunca é suficiente. Se mais tivéssemos, mais faríamos. No entanto, sem o apoio da Câmara Municipal, metade do que se tem feito não teria sido possível. Se, nos últimos anos, o TEL tem conseguido apresentar tantas actividades deve-se, sobretudo, ao apoio da Câmara.
C. de L. – Agora, com os cortes da União Europeia para Portugal, acha que, directa ou indirectamente, o TEL vai ser muito prejudicado?
S. M. – Ainda não sei a que ponto, mas é claro que todos iremos ser afectados.
C. de L. – O que é que necessitam com mais urgência para poderem desenvolver a vossa acção?
S. M. – O que mais necessitamos é de uma viatura para transporte de actores e cenários.
C. de L. – Como é que avalia, em termos dos resultados do TEL, o ano que acaba de nos deixar?
S. M. – Penso que foi positivo pelos apoios e estruturas que tivemos. Mais seria impossível.
C. de L. – Que planos é que têm para o ano que se está a iniciar?
S. M. – Já estamos em ensaios com dois trabalhos – uma peça para a infância, “Quem ajuda a Abelha Amélia?”, um trabalho criado e encenado pela Nelda Magalhães, a estrear no dia 6 de Março. E uma peça de palco, “Cabaret Café Teatro”, uma peça em estilo musical criada e encenada por Ruben Garcia, que estreia a 15 de Março. Mais tarde, vamos iniciar dois projectos inovadores na associação. Para o primeiro, o Projecto Naia, iremos começar uma formação contínua com as crianças das aulas de teatro do ensino extracurricular que, este ano, transitaram para o 1º ciclo. O Projecto Saidusufá e Bombaí visa sensibilizar outra camada de jovens, os jovens inactivos, que passam o tempo presos à Internet e à televisão. A ideia é organizar convívios e levá-los a visionar espectáculos, concertos, visitas culturais a museus, exposições, acontecimentos desportivos, entre outros. Para esta actividade será essencial uma viatura, daí que tenhamos isto como prioridade, porque contamos levá-los a várias regiões do país.
C. de L. – De que orçamento dispõem para que esse plano se possa pôr de pé?
S. M. – De momento não sabemos. Estamos, ainda, a iniciar as candidaturas aos apoios para o ano de 2007.
C. de L. – Quais as perspectivas de futuro para o TEL?
S. M. – Não gosto de impor metas mas, sim, de ir dando um passo de cada vez. Esse tem sido o nosso percurso. No futuro mora o sonho. Fazer teatro é sonhar e sem sonho não há teatro.![]()
Silménia Magalhães Presidente do Teatro Experimental de Lagos
Correio de Lagos | 23-01-2007 | http://www.correiodelagos.pt/
